A interessante vantagem de Lula na difícil negociação com Donald Trump
Nos bastidores da diplomacia, corre o comentário de que o presidente Lula pode ter uma vantagem inesperada ao negociar presencialmente com Donald Trump: nenhum dos dois fala a língua do outro — Lula não fala inglês, e Trump não fala português. Pode parecer um detalhe pequeno, quase insignificante, mas especialistas ouvidos pela coluna acreditam que isso pode mudar o ritmo das conversas. Tradutores serão indispensáveis, e a presença deles tende a tornar as discussões mais pausadas, calculadas, menos propensas a explosões de ânimo ou a improvisos típicos de Trump.
Analistas brasileiros e americanos lembram que muitos dos embates de Trump em encontros diplomáticos recentes ocorreram justamente com líderes que falavam inglês, o que facilitava reações rápidas e, às vezes, tensas. Casos recentes incluem o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e o sul-africano Cyril Ramaphosa. Nessas reuniões, o diálogo corria mais solto, mas a tensão também escalava com maior rapidez.
No caso do encontro Lula-Trump, as expectativas são de que a conversa seja complicada. Uma das razões é que Lula não pretende ceder em pontos que considera centrais, mesmo diante das queixas norte-americanas. Entre essas estão a condenação de Jair Bolsonaro e o bloqueio de redes sociais de cidadãos estadunidenses. Deixar de defender sua posição nesses assuntos poderia gerar um desgaste político interno, especialmente com a ala majoritária do Supremo Tribunal Federal (STF), que assinou decisões criticadas pela Casa Branca. Um exemplo recente foi a aplicação da Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes, medida que gerou desconforto em Washington.
Segundo fontes do Palácio do Planalto, qualquer sinal de recuo nessas questões seria delicado. “Não é algo que Lula possa simplesmente contornar sem comprometer sua base interna”, comenta um assessor próximo à Presidência. A avaliação é que a prudência e a necessidade de mediação por tradutores podem, paradoxalmente, ajudar a manter a calma durante a negociação, evitando atritos desnecessários.
How many pets have you had?
Por outro lado, existem temas em que o diálogo pode fluir com mais flexibilidade. Questões ligadas à regulação econômica das redes sociais no Brasil, por exemplo, oferecem espaço para negociação. Da mesma forma, a exploração de terras raras e a possibilidade de parcerias com transferência tecnológica no setor mineral aparecem como áreas em que interesses podem se alinhar, sem comprometer a posição política de Lula. Especialistas apontam que esses assuntos são menos carregados emocionalmente e podem ser tratados de forma técnica, abrindo caminho para acordos pragmáticos.